Hoje apaguei parte de
mim. Parte do que escrevi. Parte do que senti. Talvez eu tenha apagado parte do
que eu fui um dia.
Agora
me sobram espaços para me reescrever. Já posso ver o papel em branco novamente,
e sentir que todo aquele branco espera por uma nova história escrita por mim.
Talvez com um pouco menos de drama, sem soluços e um tanto de humor. Talvez com
um novo enredo, novos personagens, novas percepções. Não sei ao certo. Só sei
que talvez eu nem chegue a completar esse espaço sozinha. Talvez eu mude de
opinião e apague o que escrevo agora. Mas daqui a pouco o agora será passado, e
o passado já é algo que não tira a minha paz.
Talvez
eu mude a cor da tinta da caneta. Saia do convencional e adote um tom mais
radical na escrita. Talvez eu nem use a caneta. Há tantas formas alternativas
para escrever. Estou cercada por “talvezes” e não acho isso ruim. Vejo todos
eles como possíveis respostas para as minhas questões. Talvez eu nem encontre
um resposta, assim como não encontre um final muito empolgante para a minha
história. Talvez eu deixe de ser caneta e me torne papel. Talvez eu não faça
parte de nada disso. Talvez eu nem saiba o que fazer com esse espaço em branco.
Talvez eu desenhe ao invés de escrever.
Talvez
eu tenha apagado mais do que parte do que fui um dia, ou talvez eu nem tenha
apagado tanto quanto imagino. Talvez eu tenha esquecido ao invés de apagar, e
por isso não me identifico mais com o que escrevi outrora. De qualquer modo, o
que se esquece também se apaga. Talvez o meu papel em branco nem esteja tão
branco assim. Talvez ainda haja vestígios de outras escritas nele. Talvez eu
nem saiba o que escrevo agora. Talvez o segredo não seja esvaziar a xícara, mas
deixar o papel verdadeiramente em
branco. Talvez esse talvez acabe agora. Talvez não.







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